O colar de rubis

A amargura teve início nas cinzas verde e rosa varridas pela marra e uma chuva fraca. O colar veio ao chão com suas oito pedras avermelhadas, assim que os bobes partiram-se ao meio, fechando o sorriso e calando com ele a sabedoria de palavras conciliadoras, motivantes, experientes. De ali em diante, ali na beira da já escura e silenciosa praia, as cores confeitadas assombrearam-se; não sem antes escancarar a assombrosa tormenta que devastaria com as promessas de um novo ano. Que abalaria alegrias tão solidificadas… eternas, simples, verdadeiras. Sem trégua. Vidas preciosas racharam-se, emudeceram-se, perderam a graça, viraram estrela, após a queda dos oito rubis.
Um arroxeado pelo forte e lindo azul do seu olhar foi o primeiro a se apagar. Partiu após lutar, combater, vencer, entrar em guerra novamente com todas as suas forças, se apegar a toda a sua fé e esperança na vida, na família, na medicina, na espiritualidade. Ser nonna, amar e ser amada. Após fazer tudo o que podia pelos outros e se revoltar por ter de ser impedida pelo destino a continuar com seus sonhos. Descansou de sua dor, deixando arrasado o rubi irmão protetor.
Do outro lado do colar, o rubi de vermelho radiante, vaidoso, que se fazia sempre notar, foi paralelamente perdendo sua tez, dia a dia, rapidamente, enquanto a feridinha não parava de se alastrar em um golpe repentino, duro de aceitar.
Ao menorzinho rubi, a inocência do imaginar, mesmo sem vontade, aquele brilho viajar às estrelas. As outras pedras, desestruturadas desde aquela quarta-feira, cada qual com sua dor, se frustavam a cada tentativa de reacender um sentido em viver. Para um, talvez outros, a esperança segue dentro da mais forte, madura, marcante pedra, o pilar de tantas outras, mas que não pode mais se autoanunciar. Permanece observando, ouvindo, reagindo em sua calada luta, remando sem quase sair do lugar, para trazer todos os pedaços espatifados ao seu redor novamente. Alguns se encontraram e somam forças, muito fracas ainda, porém, em seu poder de levantar e atrair as demais para interromper a partida de mais rubis desse colar.

Published in: on setembro 3, 2016 at 9:34 PM  Deixe um comentário  

Amor por um filho

É descobrir que o amor alimenta
Que cada sorriso é uma energia
Que entra para ofuscar a tristeza
É prestar atenção aos mínimos gestos
E valorizar todos os nossos valores

Acreditar no que não se acreditava
Admirar a perfeição da natureza
O desenvolvimento humano
A formação e os movimentos
Gabar-se com o que foi feito

É ficar idiota, desligado
Concentrado apenas em um serzinho
Em suas tentativas de pegar o pé
Vê-lo tentar alcançar, com toda paciência, um objeto
De rolar para chegar cada vez mais perto

Ouvir o coração rasgar a cada bico
Desesperar-se a cada choro
Rir de todas as caretas
Gargalhar com improvisos
Emocionar-se com qualquer fala

Não se importar em levar um banho
Não se lembrar de si mesmo
(A não ser quando for fundamental para ele)
Pegar no colo e apertar
Querer beijar e não largar

Sentir saudades enquanto dorme
Ficar hipnotizado e não se cansar de olhar
Ficar sem graça ao ser encarado
Pensar “será que serei bom?”
E deixar que a aflição traga forças

Sentir-se super-herói
Sentir-se capaz
Sentir-se pleno
Sentir-se maravilhado
Sentir-se orgulhoso

Ver como não é preciso muito
Saber o quão você é importante
Reparar nos exemplos
Buscar ser melhor
Sentir medo e encarar

Querer mais
Ir atrás
Se dar, compartilhar
Rir, chorar
Amar mais do que já foi capaz

(Roberta Viganó)

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Published in: on outubro 23, 2013 at 1:04 PM  Comments (1)  
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Presente

Quando eu era criança, brincava de atari, autorama, barbies e fazendinhas. Não tinha TV a cabo nem VCR, mas assistia Bambalalão, Balão Mágico, Clube do Mickey e Bozo, além de filminhos em super8. Brincava de esconde-esconde, pega-pega, pulava corda e elástico e jogava vôlei e futebol na rua ou no pátio do prédio. Brincava com os cães, dava banho neles e no carro dos adultos com a mangueira. Também ia para o clube, nadava e me divertia. Com a chegada do videocasseste, passei a assistir às histórias que ouvia pela vitrolinha ou contada antes de dormir a cores, ficando horrorizada com a bruxa da Branca de Neve.

Adolescente, ganhei o meu walkman e não tirava o fone do ouvido por nada. Passei a jogar master e phantom e pirar com o Mario Bros. Quando o primeiro Apple surgiu em casa, me diverti com os joguinhos de xadrez e karateca. E assim foi com a chegada do Windows e o tetris e a paciência. Celular, internet… Não sou das mais viciadas, mas acho bastante útil.

A infância de hoje é diferente, porém, não pelas brincadeiras. Por uma cidade mais movimentada, sem espaços nas ruas, quase sem casas e ruas tranquilas, talvez. A tecnologia é substituída de tempos e tempos. A educação, os valores e o tipo de distração cabe a cada família ensinar, mas deveriam ser os mesmos.

Sentir saudades e lembrar do nosso tempo é delicioso. Sacanagem é ficar falando que tudo o que existe hoje é pior. Adoro jogar Wii e fiquei maravilhada ao voltar a Disney e Universal após 17 anos. Do Tubarão ao Castelo do Harry Potter, da Space Mountain ao Aerosmith… Quanta diferença boa!

Aproveitem o presente!

Published in: on junho 28, 2011 at 5:03 PM  Deixe um comentário  

Sonhos em vão

Temos sonhos que não nos deixam despertar
Aqueles quando nosso subconsciente nos prega uma peça e projeta a realidade ideal
É a preguiça involuntária e sádica
Que nos mostra o futuro próximo
As horas seguintes ao acordar

Nos vemos tomando um delicioso café
Saindo de casa
Comandando importantes reuniões
E falando bonito
Até nos comunicamos fluentemente em outro idioma, se preciso

Já seria quase hora de sair para o almoço
Mas os olhos abrem, a ficha cai, e percebemos que ainda estamos deitados
Nada daquilo ocorreu…
Conferimos as horas
E comumente é tarde, muito tarde

O que era um fantástico sonho de dolce fa niente responsável
Torna-se um pesadelo
Mais um dia de chegar atrasado
E sem culpa, talvez…
Estava-se trabalhando, afinal!

Corre-se para o banho
Sem aproveitar o melhor da ducha da manhã
Os dez minutos de alongamento matinal
O abraço apertado no corpo quente da pessoa amada
Ou um carinho no cãozinho, que ainda dorme como um anjinho ao seu lado

O mau humor é devastador
O trânsito sufoca e o sentimento estranho de dèjá vu irrita
Não dá para pular isso com o controle remoto?
Esse filme eu já vi
Vamos logo para a segunda parte!

Mas como voltar a dormir e não cair mais nessa cilada?
Difícil
Quanto mais o cérebro consciente
Resiste em se abrir para o novo dia
Mais esforço em vão

O motivo está no coração
Na vontade de curtir um novo dia
E de descobrir desafios
Os lados bons e ruins da vida
Com energia e disposição

O que te faz deitar para não acordar?
Depressão? Medo? Cansaço?
Descubra para se livrar do subconsciente abusado e inquisidor
Que continuará a pregar peças e mostrar um lado mais divertido, maleável e perfeito
Uma verdade que não te diz respeito, até você conquistar!

Published in: on abril 5, 2011 at 3:51 AM  Comments (1)  
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Vazio

Portas abrem
Portas fecham
Vazio aqui dentro

Tec-tec marcha no corredor
Tlac-tlac giram as maçanetas
Vazio aqui dentro

Tic-tac bate no relógio
Tum-tum explode no peito
Vazio aqui dentro

Barulhos rodeiam
Espera silenciosa
Angústia aqui dentro

Frio cortante
Braços distantes
Angústia aqui dentro

Saudade que aperta
Despertador que desperta
Angústia aqui dentro

Dia sem graça
Confusão já armada
Conflito aqui dentro

Pensamentos invadem
Raiva que exala
Conflito aqui dentro

Febre machuca
Corpo fechado
Conflito aqui dentro

Esperança de um dia
Barulhento que seja
Me invada por dentro
E conflite sem pena
O vazio que um dia
Espalhou aqui dentro
Uma falta tremenda!

Published in: on março 30, 2011 at 9:42 PM  Deixe um comentário  

Sombra



Uma e meia
Meio sonolenta
Escreve o que sente

Mente solta
Mão ligeira
Só pensa besteira

Digita apressada
Sem distinguir as palavras
Uma breve conversa

Nada de sujeitos ou objetos
Mas cheio de pompas e esmeros
Segue o enredo

Astigmatismo cansado
Sem deixar reflexo
Invade a luz amarela

Corpo já amolecido
Acompanha a sombra dos dedos
Apressados baterem no preto

Nada atrapalha
A não ser os tristes minutos
Que desanimam o raciocínio

Em ritmo descompassado
O silêncio impera…
Fim das grandes ideias

Published in: on março 30, 2011 at 9:39 PM  Deixe um comentário  

Bullying, Bulimia e Red Bull – Bullshit!

Não é só o “bul” que esses assuntos acima têm em comum. Como causas e consequências, vemos a mídia explorá-los como os vilões da sociedade-vítima atual. A pessoa é gordinha? Vai sofrer assédio moral dos colegas desde a infância, autopressão psicológica da adolescência em diante e, quando adulta, provavelmente, beber para criar asas e fugir dos problemas.

Óbvio que a intenção aqui não é piralosofar em defender qualquer um desses males. Porém, a iniciar pelo bullying, há um grande ponto positivo a ser mencionado: aprender desde cedo que não é possível confiar em todos e que NÃO: as pessoas não têm noção e não têm a menor consideração em 90% das vezes – ou mais. Flexibilidade e sensibilidade, então, nem pensar!

Ter sido criada entre o amor da família e, felizmente, de bons amigos, além de ter o peso normal, foi um escudo protetor de picuinhas, fofoquinhas, tirações de sarro e ridicularizações. O problema da “Poliana” é não ter sido calejada pela vida real. Não saber os tipos de gente que você vai encontrar pelo caminho.

y é cruel? Com certeza! Criança não tem preparo e sabedoria para lidar com críticas. Crescerá traumatizada e blábláblá. Mas, ao menos, saberá quais são os padrões da sociedade e até onde os colegas são capazes de chegar para se sobressaírem.

O adulto? Ao vivenciar uma puxada de tapete, uma gozação ou um desrespeito de qualquer espécie pela primeira vez, cairá de uma altura tão proporcional quanto à sua idade. Passará meses até entender o que ocorreu, perderá seu autocontrole e, provavelmente, recorrerá ao Red Bull ou Label – ou ambos ao mesmo tempo – para superar isso.

Vai aprender de cara? Não. Vai achar que foi só um caso do acaso até ser surpreendido novamente e, quissá, novamente.

Blindar crianças dos problemas, não conversar sobre coisas e pessoas ruins, achar os filhos fofos ao invés de gordos… Isso é o maior dano. Bullying, bulimia e Red Bull são temas que devem ser tratados abertamente e o quanto antes.

Preparar para a vida é mostrar o lado bom e o lado mau. Isso é educação! É dar asas, ensinar a ser livre e seguro de si para saber lidar e revidar situações desagradáveis com luvas de pelica. Ensinar a comer de tudo com equilíbrio e controle, procurar o médico assim que desconfiar de um problema de saúde e conversar e desabafar diante uma provocação sofrida.

Resolver suas questões, tornar-se melhor. Não fugir ou fingir que nada acontece. Isso sim é bullshit!

Published in: on março 30, 2011 at 9:20 PM  Comments (1)  
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Acalmador da saudade

Refleti ao acordar
Qual imagem eu veria hoje no espelho
Seria a mesma que viu o meu amor ao me beijar
Ou aquela que duramente condeno?

Não vi sorriso
Não vi beleza
Vi a aflição de uma saudade anunciada
Em cara sem graça amarrada por linhas finas

Como inspiração veio a leveza da manhã
E o enxergar a simplicidade ao contemplar o sol
Poderoso disfarce de olheiras é esse esticar os lábios
Essencial para o humor, ego e bem-estar!

Por toda face riscos de alegria irradiaram-se
E uma doçura suave se fez despertar
A imagem pela qual todos facilmente se apaixonam
Já não estava mais escondida ali naquele olhar

É… O poder de se ver o que se quer ver
Não é compreendido por todos
Mas cabe a você saber identificar
A magia que a faz se sentir bem, capaz de transformar!

Published in: on março 10, 2011 at 5:12 PM  Comments (1)  
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Semana 2. De volta às minhas subpastas

Chego à conclusão de que, além de os arquivos excedentes serem expulsos automaticamente pelos sistema – fazendo aquele escândalo já comentado -, há uma outra situação, um plano B do nosso cérebro.

O sistema reconhece que para aquele problema não há mais solução e “zipa” o conteúdo sem mais destino em um arquivo chamado “caso encerrado”.

É quando aquela sensação de impotência impera e você reconhece que perdeu o controle diante a uma situação.

Esse arquivo pesadão, ao invés de sair pelos olhos (lágrimas) ou pela boca (berro), desce como uma bomba e é engolido seco. Na garganta engasga – e por lá fica preso por uns dias em um nó. Com muita saliva, no entanto, escorrega até o peito. E é lá onde ele mais vai causar problemas.

Ou as pastas existentes no peito têm tamanho pífeo ou nem existem. Aquele pesado arquivo de extensão diferente não consegue ser instalado ali. E o sistema avisa o quando de sua chegada. Incomoda, aperta, sufoca, dói…

É quando, finalmente, se percebe que “provocar a mudança do mesmo”, em novas tentativas para se alcançar um objetivo “x”, é igual “a ordem dos fatores não altera o produto”. Cai a ficha de que é preciso agir diferente e mudar, definitivamente, toda uma rota.

Isso vale mil vezes mais quando as tentativas têm o intuito de mudar o pensamento de um outro alguém, não o de você mesmo. E cresce em PG (progessão geométrica) se tal indivíduo encara qualquer crítica como “assunto pessoal”! Coitado… Haja limite para tal pasta desse cara, hein?

Chego ao ponto da análise: arranjar força para fazer girar o mundo só para se desvencilhar do ser encalhado ali em seu caminho, tendo de encontrar soluções mais complexas, que exijam esforço coletivo e com mais concessões… Isso vale, Arnaldo?

Published in: on fevereiro 26, 2011 at 5:18 PM  Comments (1)  
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Arquivo cerebral

É curioso observar o funcionamento orgânico cerebral de armazenamento de informações. Cada tema ganha a sua devida pasta de arquivos e, como no computador, há sempre um limite máximo de capacidade. Acredito que no meu caso – sim, cada um tem um esquema interno de fluxograma –, dentro de cada tema há diversas subpastas, sabiamente nomeadas. E aqui está o fato a ser destacado.

Assim como as grandes enchentes têm comprovado as teorias da Física, tudo tem um limite. O solo é capaz de receber e aguentar um determinado volume de água em suas porosidades. Até… Não absorver mais e inundar tudo. Uma catástrofe!

Já percebeu? Exatamente assim é o meu cérebro. A pessoa mais paciente e tranquila do mundo é capaz de se transformar, psiquicamente, em um problema de saúde pública. Entra em estado de atenção e dispara alerta máximo a todos os envolvidos: pelo seu próprio bem, favor não se aproximar!

Pelo que tenho observado nesses últimos tempos, algumas de minhas subpastas estão cheias. Basta ouvir assuntos relacionados a elas que, não tendo mais onde armazenar, eles perdem seus destinos certos e bagunçam todo o cérebro. A consequência é o desequilíbrio de toda uma estrutura devidamente organizada. Um descompasso geral que explode… Pela boca!

Os gritos, assim, são as formas encontradas pelo cérebro de tentar extravasar tudo aquilo que não mais pode armazenar. É, as lágrimas também…

Certo. Tudo faz sentido. Mas, e agora? Como é possível jogar fora o conteúdo pré-existente dentro dessas subpastas para que elas possam receber novos itens?

Essa é a minha terapia atual e individual. Aprender a jogar velhos arquivos fora e esvaziar minhas subpastas sobrecarregadas. E não adianta férias, sol, viagem para a praia ou montanhas. Nada do que fizer para seu bem-estar e relaxamento físico e mental é capaz de, automaticamente, jogar conteúdos fora. É preciso agir diretamente no alvo. Ter coragem de abrir subpasta por subpasta e começar a limpeza. Isso, claro, sem ajuda terapêutica especializada. É você.

Pá e vassoura, por favor! Preciso assoar o nariz…

Published in: on fevereiro 18, 2011 at 3:17 AM  Deixe um comentário  
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